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Crianças dos EUA e Canadá em idade pré-escolar diagnosticadas há 6 meses participaram da pesquisa

Um estudo publicado no mês de abril.2020, com mais de 800 crianças com autismo em idade pré-escolar nos Estados Unidos e Canadá, apontou que a maioria delas está recebendo, seis meses após seu diagnóstico, pouco mais de 5 horas de terapias semanais, e o recomendado naqueles países é de 25 horas por semana. Outro fator mencionado é que somente um terço das crianças iniciou intervenções com terapia comportamental, a que tem maior eficácia comprovada por evidência científica. Ainda mais preocupante, a pesquisa descobriu que 16% tomam ao menos um medicamento psicotrópico, a maioria deles não indicado para crianças com autismo ou para sua faixa etária. Ou seja, foi evidenciado o uso de medicamentos não regulamentados para crianças junto aos órgãos competentes, como o FDA, nos EUA, e, portanto, sem essa informação na bula.

“Isso aponta para a necessidade de melhorar o acesso aos cuidados de todas as crianças com autismo e reduzir algumas das barreiras atuais que muitas famílias enfrentam”, disse Daniela Ziskind, médica do Hospital Infantil da Filadélfia, na Pensilvânia (EUA), que liderou o trabalho, ao site Spectrum News.

Medicação

Segundo o estudo, 16,3% das 805 crianças usavam medicamentos psicotrópicos, independentemente da quantidade de terapia que estavam recebendo. Os tipos mais comuns foram drogas usadas ​​para tratar a hiperatividade, mas ainda não aprovadas para crianças nessa faixa etária ou para crianças com autismo pelos órgãos regulatórios dos dois países. E um total de 25 crianças (cerca de 4%) estavam fazendo uso de antipsicóticos.

A diretora do Centro de Excelência em Pesquisa em Autismo da Universidade de Boston, Helen Tager-Flusberg, disse ao Spectrum News que as descobertas sobre o uso de drogas são “alarmantes”. Ela — que não participou do estudo — destaca que os medicamentos apontados na pesquisa não são estudados suficientemente em crianças dessa idade. E que poucas horas de terapia e a dependência de medicamentos podem andar de mãos dadas.

Para a pesquisadora Ziskind, em algumas regiões, o nível de uso de medicamentos pode ser reflexo das políticas locais de saúde ou da disponibilidade de terapias não medicamentosas. Ela e seus colegas descobriram no estudo que as crianças nos EUA têm maior probabilidade de tomar remédios do que as do Canadá.

Terapia comportamental

A Academy of Child and Adolescent Psychiatry (Academia Americana de Psiquiatria da Criança e do Adolescente) recomenda que crianças com autismo recebam intervenções comportamentais baseadas em evidências. Um painel de especialistas convocado pela Autism Intervention Research Network on Behavioral Health recomenda que as crianças recebam pelo menos 25 horas por semana dessas terapias. Mas, entre as crianças do novo estudo, apenas 14% delas estavam recebendo este mínimo semanal — e cerca de 47% estavam recebendo menos de 5 horas por semana.

“Essa é uma descoberta importante e surpreendente; e está bem documentada aqui. Há crianças e famílias que poderiam estar tendo muito mais apoio e tratamento do que estão recebendo agora”, diz Tager-Flusberg.

Quanto ao tipo de terapia, 77% das crianças estavam em terapia com fonoaudiólogos e 67% estavam em terapia ocupacional. Apenas 33% tinham terapia comportamental, a que tem a melhor base de evidências científicas comprovando sua eficácia.

O estudo

Para o professor Lucelmo Lacerda, doutor em educação, pós-doutorando em educação especial e pai de uma criança com autismo, “esta pesquisa representa uma situação dos EUA e Canadá, o que é bastante preocupante, por diversos motivos, mas principalmente porque a medicação pode, eventualmente, ser um apoio na intervenção, mas não é o tratamento para o autismo, além disso, trata-se de medicações que não foram testadas nesta população, o que mostra que não é só aqui que temos desinformação e comportamento não científico. Agora, se nesses países, que possuem serviços públicos robustos, temos esses dados, é provável que no Brasil tenhamos quadros ainda mais sérios, em que pouquíssimas pessoas têm a intervenção adequada. Seria muito importante um estudo como este no Brasil”, disse ele, que é autor do livro “Transtorno do Espectro Autista: uma brevíssima introdução”.

Esta pesquisa científica — publicada em 1º.abr.2020 na Pediatrics, publicação científica da Academia Americana de Pediatria — foi feita com 805 crianças de 3 a 6 anos de idade, seis meses após seu diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo, que se matricularam na Autism Treatment Network, um grupo de 17 centros médicos nos EUA e no Canadá ligados à ONG norte-americana Autism Speaks, de dezembro de 2007 a dezembro de 2013.

O estudo completo (em inglês) pode ser acessado em: ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32238536.

 

(Com informações da Spectrum News)

Estudo aponta que crianças com autismo recebem medicação não indicada e pouca terapia — Tismoo

Celso Goyos lança livro sobre ensino da fala para pessoas com autismo

Sob a ótica da ABA, o professor da UFSCar reúne conhecimentos recentes sobre comportamento verbal e linguagem

O livro “ABA: Ensino da fala para pessoas com autismo“, editora Edicon, foi lançado em São Paulo na noite de 18 de dezembro de 2018, de autoria do professor Celso Goyos, do Departamento de Psicologia (DPsi) da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e coordenador do Instituto Lahmiei — Autismo (Laboratório de Aprendizagem Humana, Multimídia Interativa e Ensino Informatizado).

A ausência do prejuízo acentuado no desenvolvimento da fala é uma característica grave do quadro e muito frequente, dada a alta incidência do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). “É, portanto, um tema de grande interesse para uma ampla variedade de profissionais que tratam da fala, sob diferentes perspectivas, embora o enfoque do livro seja sob a visão da Análise de Comportamento Aplicada, ou ABA [sigla para o termo em inglês Applied Behavior Analysis]”, afirmou Celso, que graduou-se em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e tem mestrado em Applied Behavior Analysis/psychology pela Western Michigan University (EUA), além de doutorado em psicologia (psicologia experimental) pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado na Universidade do País de Gales (Reino Unido), Universidade de Kansas (EUA) e Universidade da Califórnia em San Diego (EUA).

Ensino da fala

Voltado principalmente para profissionais das áreas de saúde e educação que trabalham diretamente com o atendimento a pessoas com autismo, mas também a pais e estudantes das áreas de psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, enfermagem, educação especial, educação e áreas afins, o livro descreve, inicialmente, a importância do ensino da fala em oposição a algum sistema de comunicação alternativa para pessoas com autismo e sem prejuízos de estrutura nervosa ou motora, que poderiam impedir o seu desenvolvimento. Em seguida apresenta alguns pré-requisitos comportamentais para a emergência da fala, seguidos de correquisitos e da fala propriamente dita, através do operante verbal conhecido como ecoico. Toda a estrutura de ensino encontra-se direcionada a produzir as chamadas explosões de linguagem a cada etapa do programa de ensino.

Na obra, são oferecidos procedimentos específicos para o ensino dos pré e correquisitos da fala, sob o enfoque analítico-comportamental, assim como, protocolos específicos para o seu ensino que o leitor pode utilizar. Todos os procedimentos, tantos os principais, quanto os alternativos, foram retirados de pesquisa científica realizada pela Análise de Comportamento.

O professor alerta: “O ensino da fala deve ser conduzido por um profissional devidamente capacitado em ABA, em nível de pós-graduação, e de acordo com padrões previamente estabelecidos por organismos nacionais e internacionais da área. Além da pós-graduação, este profissional deve apresentar proficiência em exames teóricos e conceituais, extensas práticas clínicas e supervisão de terapeutas também capacitados e experientes em ambas atividades profissionais”, finalizou o autor.

Mais informações sobre o livro podem ser obtidas no site da editora Edicon.

 

Leia mais sobre o que é autismo neste nosso artigo; e, sobre ABA no artigo de Lucelmo Lacerda “Fazendo uma intervenção baseada em ABA“.

ABA intervenção para autismo - Tismoo

Por Lucelmo Lacerda

Este portal é de uma empresa de avaliação genética, este é um campo novo e intrigante da ciência. Quando se quer saber os mínimos detalhes de toda a sequência genética de alguém, recorremos a este laborioso trabalho de decodificação dessa criptografia incrível que é nosso corpo. A genética pode também dizer, por exemplo, se um homem é, ou não, pai de uma criança, e todos confiamos nestes resultados (o Ratinho que o diga). Esta tal de ciência é ou não é maravilhosa?

Mas, por algum motivo que me foge, quando as pessoas descobrem que uma criança tem autismo e precisam correr para realizar uma estimulação o quanto antes (já que quanto mais novo, melhor a eficiência), muitas vezes não levam em consideração as informações advindas do arcabouço científico.

A ciência é uma forma de produzir conhecimento em que se entende que uma afirmação só é legítima se for testada. Pense em todas as intervenções para pessoas com autismo, só algumas podemos dizer que funcionam, aquela que é indicada pela Organização Mundial de Saúde – OMS1, que é a mais bem demonstrada é a intervenção baseada em Análise do Comportamento Aplicada (ABA)2, em que se atua para mudar comportamento, reduzindo ou eliminando comportamentos em excesso, como agressão, autolesivos, estereotipias que podem trazer prejuízo (as que não trazem, não há motivo para intervir), entre outros, e aumentar ou ensinar comportamentos em déficits ou inexistentes, como falar, ter fluidez verbal, comer só e assim por diante.

A ABA não é um método, isto é, um roteiro de coisas a se fazer com o sujeito, e sim uma ciência, assim como a química, a física e a biologia, um campo enorme de estudos,  o qual permite que se conheça profundamente o comportamento humano, a ponto de poder mudá-lo para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Mas não sendo um método, e sim uma ciência, é necessário que ela seja conhecida com profundidade para a criação de uma intervenção individualizada, talhada para cada um dos sujeitos que se servem dela.

Mobilizar os conhecimentos de uma ciência para cada indivíduo (é por isso que ela funciona tanto) é interessantíssimo, mas isso também exige um enorme conhecimento na intervenção em si e como no Brasil não há regulamentação para essa intervenção, muito ainda é preciso esclarecer, como por exemplo, o papel dos pais em todo esse processo,  tornando imprescindível que os mesmos tenham uma boa noção do assunto, tanto para optar de maneira consciente, quanto para selecionar um bom profissional e acompanhar com lupa o processo. Leia mais