Em vídeo, neurocientista brasileiro explica o que é exatamente cada um dos exames genéticos

Em visita ao escritório da Tismoo no Brasil, o neurocientista Alysson Muotri, cofundador da startup, explica cada um dos três exames genéticos oferecidos pela Tismoo atualmente: T-Array (CGH-SNP-Array genômico), T-Exom (sequenciamento completo do exoma) e T-Gen (sequenciamento completo do genoma).

Alysson, que é professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), fez questão de falar sobre uma das principais dúvidas de quem entra em contato com a Tismoo: “qual o melhor exame?”. Assista à resposta.

E logo depois, tem um spoiler: um vídeo dele falando sobre a ação que a Tismoo irá lançar na próxima semana. Podia contar? 🤔

Leia também os artigos traduzidos da Spectrum News (EUA) sobre a importância dos exames genéticos (neste link) e o estudo recente que aponta a importância do seuqneciamento do genoma completo (neste link).

Exames genéticos para autismo

Medicina personalizada

Estudo reforça importância do sequenciamento do genoma completo em autistas — Tismoo

Trabalho científico analisou mais de 7 mil genomas de autistas e seus familiares

Pesquisadores descobriram, com o uso de inteligência artificial, mutações genéticas em regiões não codificantes de proteínas que podem resultar no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Foram analisados o sequenciamento do genoma completo em 1.790 famílias que tinham pelo menos um indivíduo diagnosticado com TEA, totalizando 7.097 genomas. A ideia foi tentar relacionar mutações nas regiões não codificantes com o autismo, utilizando um modelo computacional que consegue predizer os efeitos regulatórios específicos e impactos dessas mutações. O trabalho, publicado na Nature dia 27 de maio de 2019, liga alterações genéticas em regiões não codificantes a condições do neurodesenvolvimento.

Trocando em miúdos, o estudo mostrou a importância do sequenciamento do genoma completo para pessoas com autismo. O sequenciamento do exoma completo já era indicado por muitas associações médicas de países desenvolvidos, como nos Estados Unidos, como uma metodologia de auxílio no diagnóstico do TEA. Porém, o exoma cobre apenas cerca de 2% do genoma humano. No passado, o restante era considerado “lixo”, informação sem importância embora já fosse sabido que essas regiões eram importantes em questões regulatórias. Este estudo vem mostrar o contrário, que essas outras regiões do genoma (regiões intergênicas, não codificantes de proteínas), que ficam nos demais 98%, têm relevância para o risco associado ao TEA. Estes resultados sugerem que essa classe de mutações também podem estar associadas a outras complexas condições de saúde, especialmente em casos sem causa conhecida.

Genoma

“A Tismoo, que sempre prezou pelo potencial científico desde a sua fundação, viu um potencial nessas regiões e oferece o sequenciamento do genoma completo (T-Gen) desde que abriu suas portas, em 2016, sabendo dessa importância, hoje comprovada por este estudo científico. No entanto, sabe-se que mais estudos são necessários para que essas informações sejam utilizadas na rotina clínica”, explicou a cientista Graciela Pignatari, cofundadora e diretora executiva da Tismoo.

As mutações nas regiões intergênicas, não codificadoras, estão associadas à regulação gênica alterada em pessoas com autismo. Além disso, as mutações afetam a expressão gênica no cérebro e outros genes já ligados ao autismo, como os responsáveis pelo desenvolvimento e migração de neurônios, mostrando sobretudo a importância de mais estudos nessas regiões.

O estudo científico, na íntegra, pode ser visto em: https://www.nature.com/articles/s41588-019-0420-0.

Austrália autoriza teste de medicamento para Síndrome de Rett — Tismoo

O teste clínico foi anunciado pela associação da síndrome no país e pelo laboratório Anavex, responsável pelo fármaco

Cerca de 30 pacientes com Síndrome de Rett participarão de um teste clínico (trial) do medicamento “Anavex 2-73”, que foi aprovado recentemente pelo Comitê Australiano de Ética em Pesquisa Humana. O estudo, um teste clínico duplo cego, randomizado, controlado por placebo, foi anunciado nesta semana — na tarde de 8 de maio de 2019 — pela Associação de Síndrome de Rett da Austrália e a biofarmacêutica Anavex Life Sciences Corp., responsável pelo medicamento.

Batizado de “Avatar”, o teste — em fase 2 — está programado para iniciar-se neste trimestre e pode durar até sete semanas, e deverá avaliar a segurança e eficácia da formulação oral da droga, em uma dose única por dia. Os participantes do estudo também poderão participar de uma extensão do estudo, que será aberto (open-label), para continuarem recebendo a medicação.

Rett

“A Síndrome de Rett, que é observada quase exclusivamente em mulheres, é um distúrbio genético em que o cérebro não amadurece da maneira esperada. Para a maioria das crianças afetadas, seu desenvolvimento inicial parece normal, mas depois diminui ou, de repente, paralisa”, explicou Claude Buda, presidente da RSAA — Rett Syndrome Association of Australia (em português: Associação de Síndrome de Rett da Austrália).

Em estudos anteriores, a droga resultou em melhorias em modelos animais, com propriedades anticonvulsivantes, antiamnésicas, neuroprotetoras e antidepressivas. Além de Síndrome de Rett, o medicamento também foi usado com bons resultados em outras condições que envolvem o sistema nervoso central, como num ensaio pré-clínico para Mal de Alzheimer.

A Fundação Michael J. Fox, voltada a pesquisas para Mal de Parkinson, premiou a Anavex — que desenvolve tratamentos para doenças neurodegenerativas e condições de saúde do neurodesenvolvimento — com uma bolsa de pesquisa que financiou totalmente um estudo pré-clínico utilizando esta mesma droga para o tratamento da doença.

“Estamos orgulhosos de ter feito parceria com a Rett Syndrome Association of Australia no projeto do estudo Avatar e entusiasmados por termos dado um passo importante no avanço do desenvolvimento de um possível tratamento para a Síndrome de Rett que pode beneficiar as famílias e indivíduos que vivem com esta condição de saúde”, disse Christopher U Missling, CEO da Anavex, no comunicado oficial no site da biofarmacêutica.

Associação

Saiba mais a respeito da Síndrome de Rett, causada por uma mutação no gene MECP2, e da pesquisa do neurocientista brasileiro Alysson Muotri — um dos cofundadores da Tismoo — sobre esta síndrome neste nosso artigo.

No Brasil, a maior associação relacionada à síndrome é a Abre-te – Associação Brasileira de Síndrome de Rett, fundada em 1990. Mais informações em Abrete.org.br. Nos Estados Unidos, a maior é a International Rett Syndrome Foundation (RettSyndrome.org), com sede em Cincinnati.

O site do teste clínico é rettsyndrometrial.com.

 

Pais de crianças com mutações raras ligadas ao autismo estão se unindo para apoiar e unir forças com cientistas, acelerando o ritmo das pesquisas

Spectrum News é um site dos EUA que dedica-se a cobrir as questões do autismo sempre com um embasamento científico. Nas últimas semanas (desde dia 30.jan.2019), eles publicaram uma série de três reportagens sobre genética clínica e autismo. Segue aqui a tradução livre do terceiro texto, cujo original (em inglês) pode ser acessado neste link. Este material, como sempre fazemos, está cheio de links referenciando os estudos científicos, quem são os especialistas citados e o que é cada exame genético. Leia também nossa tradução do primeiro e segundo textos (tem links no final).

Por Jessica Wright
(versão em português: Francisco Paiva Junior)

Parece uma sexta-feira qualquer no Legoland Discovery Center [um verdadeiro parque de diversões da Lego], em Grapevine, no estado do Texas [EUA]: cerca de meia dúzia de crianças fazem fila para os passeios cheio de cores ou posam com figuras de Lego em tamanho natural. Eles têm uma notável semelhança um com o outro — com mechas de cabelos cacheados, olhos arregalados e largos sorrisos de lábios finos. Alguns vieram de longe, como da Austrália, e seus pais se abraçam calorosamente ao se encontrarem.

Quando o grupo se dirige para almoçar no café Rainforest, nas proximidades, Jasey Miller, uma menina de 12 anos, hesita na entrada: o restaurante está enfeitado com videiras falsas e animais robôs barulhentos e gesticulando. Percebendo sua hesitação, Abby Ames, de 15 anos, a pega pelo braço e a leva para dentro.

Só que não é uma reunião de família — Jasey e Abby se encontraram apenas uma vez antes, dois anos atrás. Mas as conexões entre eles são mais profundas do que aquelas que unem muitos parentes de sangue. Jasey, a irmã de Abby, Bridget, de 10 anos, e uma criança em cada uma das 19 famílias aqui carregam uma mutação em um gene chamado PACS1.

“Estou com o meu povo”, diz Paulette Torres-Chase, cuja filha, Alondra, de 5 anos, também tem a mutação. “Todo mundo que vem aqui é da família: não importa se seu filho está gritando; Não importa se seu filho está sentado sozinho em um canto — estamos juntos”.

As crianças com a mutação no PACS1 têm algum tipo de atraso no desenvolvimento e características de autismo; cerca de metade delas tem um diagnóstico de autismo. Muitos também têm convulsões, problemas motores e hipersensibilidade sensorial.

Em 4 de abril, sabia-se que apenas 110 pessoas em todo o mundo tinham a síndrome PACS1 — ou pelo menos são as identificadas neste grupo, PACS1 Smiles. O grupo saiu de uma página no Facebook, que começou em 2014, com apenas cinco famílias. Dois anos atrás, duas famílias decidiram passar férias juntos na Virgínia. Eles sugeriram, em tom de brincadeira, que os outros deveriam se juntar a eles: Isso levou ao primeiro encontro com 14 famílias na Virgínia. O da Legoland neste final de semana de março [de 2019] é o segundo encontro do grupo e conta com 81 pessoas.

Dezenas de grupos semelhantes foram formados por famílias de pessoas que têm mutações em uma sopa de letrinhas de genes do autismo: SYNGAP1, DYRK1A, SCN2A e ADNP. Os membros do grupo se apoiam mutuamente, compartilhando dicas duramente conquistadas sobre como viver sob as condições que as mutações causam. Ao longo do caminho, eles também estão ajudando projetos de pesquisa e fornecendo aos cientistas uma riqueza de informações.Como as famílias estão acelerando os estudos dos genes do autismo — Tismoo — Spectrum News

Às vezes, essa informação equivale a uma curiosidade compartilhada — como o fato de muitas crianças com mutação DYRK1A se sentarem da mesma maneira, reclinadas com as mãos atrás da cabeça. Outras vezes, isso levou a avanços significativos, incluindo a descoberta de que as mutações no SYNGAP1 têm um efeito embotador nos neurônios sensoriais — [que apagam e/ou reduzem a atividade neural].

Os cientistas às vezes realizam essas reuniões para fazer avaliações no local e recrutar participantes do estudo. “Observar muitas crianças com a mesma condição genética permite aos pesquisadores a chance de detectar coisas que normalmente passariam batido”, diz Stephan Sanders , professor assistente de psiquiatria da Universidade da Califórnia, em San Francisco.”Sentados em uma sala por dois dias, pensando em nada mais, a não ser essas crianças e seus pais e os problemas que eles têm, e vendo-os em primeira-mão, dá-lhe uma visão que você não consegue de outra maneira.”

Os grupos familiares, por sua vez, estão aumentando a conscientização e os recursos para apoiar a pesquisa e dar aos cientistas acesso a essas pessoas com mutações raras. “Nós podemos ter acesso a todos os pacientes, por isso temos todos em um quarto”, diz Sandra Sermone, que fundou um grupo familiar para a síndrome de ADNP depois que seu filho Tony foi diagnosticado.“Essa parte que estou aprendendo é a mais importante — reunir todas essas famílias e motivá-los coletivamente a ajudar na pesquisa.”

“Há muito mais confiança nessas organizações, pois todas compartilham uma experiência em comum.” (Evan Eichler)

Odisséia genética

No momento em que a maioria das famílias chega a uma reunião, enfrenta uma odisséia diagnóstica complicada. As histórias muitas vezes são semelhantes: anos indo a médicos e especialistas, sem respostas claras ou soluções para seus problemas. A maioria das pessoas acaba por obter um diagnóstico por meio do sequenciamento do exoma — um exame que lê a maioria dos genes no exoma de uma pessoa [cerca de 2% de todo o genoma]. O método raramente é coberto pelo plano de saúde nos Estados Unidos, no entanto, muitas famílias se inscrevem em estudos para obter acesso a isso. Kerri Ames, a mãe de Bridget, dirigiu por mais de mil quilômetros de sua casa em Massachusetts para um médico na Geórgia que concordou em fazer o exame. Uma família australiana enviou o sangue de seu filho para a Alemanha e pagou 3.000 dólares australianos (cerca de 2.000 dólares americanos, [pouco menos de R$ 8.000]); um laboratório no Texas fez um orçamento quatro vezes maior.

Até os últimos anos, no entanto, um resultado genético não vinha com muitas respostas. Monica Weldon fez um empréstimo de US$ 13.000 em 2012 para pagar o exame, que revelou que seu filho Beckett tem uma mutação no SYNGAP1. Mas os médicos disseram a ela que por Beckett ser apenas a sexta pessoa conhecida no mundo com uma mutação naquele gene, eles não sabiam quase nada a respeito disso. Weldon recorda como estava no meio do trânsito, na volta pra casa: “Nunca me senti tão sozinha e indefesa em toda a minha vida”. Ela criou um grupo no Facebook para pais na mesma situação, que agora os geneticistas recomendam a outras famílias.

Frederique Smeets, que iniciou o grupo PACS1 no Facebook, teve uma experiência semelhante. Seu filho, Siebe, de 17 anos, foi diagnosticado em 2011 em um centro na Holanda. Os médicos notaram uma impressionante semelhança entre ele e um menino belga que visitou a clínica. Os médicos sequenciaram os exomas de ambos os meninos e descobriram que os dois carregam a mesma mutação: no PACS1.

A família belga não estava interessada em compartilhar suas informações com outras famílias. Mas dois anos depois, Smeets recebeu um telefonema. Médicos em Cincinnati, Ohio, descobriram outra criança que carrega a mesma mutação: Jasey. “Eu me lembro do dia em que o médico estava me ligando sobre Jasey. Eu estava chorando; Foi muito emocionante conversar com outra mãe ”, diz Smeets. Ela começou a receber famílias de todo o mundo em sua casa.

Na reunião no Texas, os crachás revelam a ordem de diagnóstico das crianças. Siebe, que é o número um, não pôde comparecer; Jasey é o número quatro. Como o exame do exoma se tornou mais comum, os números nos crachás com nome aumentaram rapidamente. Mais de 60 famílias se juntaram ao grupo do Facebook nos últimos dois anos. Os pais trocam histórias e dicas, discutindo como lidar com convulsões ou sobre o sistema educacional. “Não é tudo luz do sol e unicórnios; há algumas coisas assustadoras”, diz Ames.

Quando Alondra foi diagnosticada com uma mutação PACS1, há três anos, sua família procurou o grupo antes de sua consulta de acompanhamento. “Por causa desse grupo, nós entramos em nossa consulta de genética com mais informações do que o nosso geneticista”, diz o pai dela, Philip Chase.Como as famílias estão acelerando os estudos dos genes do autismo — Tismoo — Spectrum News

Jogo de números

Alguns grupos de familiares, incluindo o DYRK1A, chegam a centenas. Amy Clugston fundou esse grupo depois que sua filha Lorna foi diagnosticada, após uma busca de 18 anos por respostas. Em 2009, Clugston havia inscrito Lorna em um estudo do National Institutes of Health (NIH) que estava sequenciando exomas para identificar condições genéticas desconhecidas.

Ela não ouviu nada dos pesquisadores do NIH por quatro anos. Mas então um alerta do Google que ela havia definido para o estudo chegou com um link para uma densa tabela destinada apenas a cientistas. A tabela listou algumas características de participantes não identificados, além das mutações que eles carregam. Uma sequência de 25 palavras médicas multissilábicas descrevia sua filha perfeitamente; Esta menina, de acordo com a lista, tinha uma mutação em um gene chamado DYRK1A. Clugston contatou os pesquisadores e disse que essa garota deveria ser sua filha.

Alguns dias depois, ela participou de uma reunião científica, em que viu um cartaz com fotos de crianças com mutações no mesmo gene. Ela parou de repente: 10 versões de Lorna a encaravam. “Eu estava realmente em choque”, diz ela. “Eu estava lendo e vendo exatamente o que minha filha havia vivido”. Pouco depois, os pesquisadores responderam: A garota na tabela era de fato Lorna. Clugston encontrou duas outras famílias online que têm filhos com mutações DYRK1A, semeando o grupo do Facebook. Dois anos depois, ela conseguiu que o grupo se reunisse com um pesquisador que estudasse a condição.

Clugston montou uma pesquisa informal e fixou no topo da página do Facebook, perguntando aos pais sobre as características de seus filhos. A pesquisa revelou que 88 de 204 crianças têm autismo, e a maioria tem atrasos de fala e desenvolvimento, tamanho menor de cabeças e problemas para comer. Também descobriu tendências anteriormente não estudadas: 145 pais disseram que seus filhos são fascinados por água — uma propensão que pode se tornar perigosa se a criança sair andando por aí. E um número de crianças tem ombros torcidos e atrasos para nascer ou perder os dentes de leite.

Clugston tornou-se uma especialista nesse gene, a ponto de identificar em fotos outras pessoas que têm a mutação. Krista Furgala, que postou uma foto de seu filho Jameson em um grupo do Facebook para crianças com cabeças pequenas, lembra a mensagem de Clugston no ano passado: “Eu acho que você é um de nós”, escreveu Clugston. Furgala levou essa informação ao geneticista de Jameson e pediu-lhe para sequenciar o gene. O geneticista estava cético, mas os resultados provaram que Clugston estava certa — e economizou milhares de dólares para Furgala.

Em poucos meses, Furgala encontrou “abrigo” em uma reunião de família, onde descobriu informações mais valiosas sobre Jameson, de 6 anos. Por exemplo, o neurologista de Jameson descartou as preocupações de Furgala de que o menino estivesse tendo convulsões, apesar de seus episódios de olhar para o espaço e suas quedas repentinas. Mas outros pais na reunião confirmaram que as convulsões são comuns entre as crianças com as mutações. Eles também aconselharam Furgala a usar medicamentos mais eficazes para convulsões e aconselharam-na a não usar óleo de canabidiol para ajudar o filho a dormir. Ela estava experimentando o uso do óleo, mas parou após a recomendação.

Esses pais geralmente sabem mais sobre a condição de seus filhos do que qualquer pesquisador ou clínico, diz Evan Eichler , professor de ciências genômicas da Universidade de Washington, em Seattle. “Há muito mais confiança nessas organizações porque todas compartilham uma experiência em comum”, diz ele. Eichler colaborou no maior estudo do gene DYRK1A , que era aproximadamente de um quarto do tamanho da pesquisa de Clugston no Facebook. “Os grupos de pais têm acesso a pessoas que os pesquisadores não têm”, diz ele.

Com estes números, vêm observações que podem semear a pesquisa. Sermone, por exemplo, notou que seu filho Tony tinha um número impressionante de dentes para sua idade: tinha todos os dentes antes de seu primeiro aniversário. Quando ela perguntou a outras pessoas do grupo ADNP no Facebook, pai e mãe disseram que viram o mesmo fenômeno em seus filhos. Sermone então contatou uma equipe belga, uma das poucas que conseguiu encontrar estudando o gene. Ela diz que eles não levaram a observação sobre os dentes a sério até que 44 dos 54 pais do grupo tivessem confirmado essa mesma característica.

Usando dados da Sermone, os pesquisadores descobriram uma ligação em camundongos entre o gene e uma via envolvida na formação óssea . Sermone consta como autora no artigo e desde então colaborou com outra equipe que estuda problemas sociais em crianças com as mutações.

Weldon também procurou diretamente os cientistas. Depois que ela descobriu sobre a mutação SYNGAP1 de seu filho, ela contatou o neurocientista Gavin Rumbaugh no Scripps Research Institute em Jupiter, na Flórida [EUA]. Em 2016, Rumbaugh e Weldon organizaram o primeiro encontro do SYNGAP1, em que Rumbaugh foi bombardeado por histórias de crianças que demonstravam uma tolerância excepcionalmente alta à dor — por exemplo, durante os exames de sangue. Explorando isso ainda mais em camundongos que não tinham uma cópia deste gene, ele descobriu que os neurônios nas regiões sensoriais dos camundongos são lentos para reagir, mas os de outras áreas do cérebro são excessivamente excitáveis.

Esse estudo inclui dados de 48 pessoas com mutações no gene, coletadas através de um registro que Weldon lançou pouco depois da reunião. O registro agora tem 209 pessoas com uma mutação, além de seus relatórios médicos; cientistas habilitados podem acessar as informações e tentar recrutá-las para estudos. “Quando você tem algumas centenas de pacientes espalhados pelo mundo, eles claramente têm pontos em comum e isso realmente ajuda a impulsionar a pesquisa”, diz Rumbaugh. “A única maneira de realmente entender o que esses fenótipos comuns são é criar um registro de pacientes”.

“Essa parte que eu estou aprendendo é a mais importante — reunir todas essas famílias.” (Sandra Sermone)

Acelerando estudos

Registros regionais podem sugerir tendências que os pesquisadores não podem ver. Mas, para acompanhar essas tendências, os pesquisadores geralmente participam das reuniões de familiares.

Nos últimos 10 anos, o geneticista clínico Bert de Vries participou de três reuniões de familiares para a síndrome de Koolen-de Vries, nomeada em parte por ele. Em 2006, de Vries descreveu uma deleção de uma região genética chamada 17q21.31 em três pessoas; em reuniões de familiares, no entanto, ele já conheceu dezenas de outros ‘kool kids‘, como são chamados. Ele recrutou participantes e coletou dados para três estudos — sobre atraso na fala , convulsões e características faciais características .

Raphael Bernier e seus colegas estão organizando reuniões de familiares em Seattle para pessoas com mutações em DYRK1A ou SCN2A — em parte para reforçar o recrutamento para seu estudo TIGER , que busca detalhar as características de 16 formas genéticas de autismo. A equipe convida as famílias para irem a sua clínica para uma série de avaliações de um dia inteiro, incluindo uma avaliação de autismo, rastreamento ocular e exames de imagem do cérebro. Até agora, 10 famílias concordaram em participar do estudo enquanto visitavam Seattle, aumentando o número de participantes com uma mutação DYRK1A em quase um terço.

O Projeto Simons Variations in Individuals , agora em seu nono ano, também coleta informações médicas detalhadas sobre pessoas com mutações em qualquer de 53 genes ligados ao autismo, incluindo o PACS1 (o projeto é financiado pela Simons Foundation, organização controladora do Spectrum News). A equipe do projeto participou da reunião no Texas e coletou sangue de 27 pessoas: 8 crianças com uma mutação no gene e seus irmãos e pais. Eles planejam disponibilizar essas amostras para cientistas interessados em estudar o gene ou em transformar as células do sangue em neurônios.

Grande parte da pesquisa sobre essas formas raras de autismo é focada em entender como as mutações afetam o cérebro. Muitas famílias, no entanto, estão esperando por tratamentos.

Em uma fria manhã de fevereiro, Sermone chega ao Hospital Mount Sinai, em Nova York [EUA], carregando um cheque de cerca de quase um metro de comprimento de US$175.000. Ela e as outras famílias levantaram esse dinheiro em grande parte através do grupo do Facebook que ela fundou. Ela está levando para Joseph Buxbaum , diretor do Centro de Autismo Seaver para Pesquisa e Tratamento.

O estudo que irá financiar é um primeiro passo para convencer uma empresa farmacêutica a investir em um medicamento para tratar pessoas com uma mutação na ADNP. Os pesquisadores também precisam mostrar que podem recrutar participantes experimentais suficientes. Depois que Sermone lhe dá o cheque, a equipe de Buxbaum recapitula dados das nove primeiras famílias do estudo e discute os planos para testar pequenas moléculas em neurônios de pessoas com essas mutações. Um grupo de famílias PACS1 também formou uma fundação privada destinada a desenvolver tratamentos , mas eles não estão tão avançados.

A reunião no Texas é sobre conexões humanas, diz Ames. No final do primeiro dia, as fronteiras entre as famílias foram quebradas. As crianças saem de uma sala de recepção apertada do hotel e cambaleiam, dançam e correm atrás umas das outras do outro lado do saguão. Irmãos pegam um ao outro pela mão e correm para os cantos para conversar. Chloee Pearson, de 17 anos, a mais velha participante com a síndrome, mostra um álbum de fotos para Finley Brown, de 4 anos, que a entretem o resto da noite. Os pais sentam-se no chão, reunidos, discutindo marcos e retrocessos. As discussões continuam até altas horas.

Durante a recepção, Angel Matthews chega com seu filho, Dalton, de 10 anos, que foi diagnosticado em agosto de 2018. Matthews apenas se juntou ao grupo há cerca de um mês e está se encontrando com outras famílias pela primeira vez. Ela observa enquanto Dalton se senta em uma cadeira do saguão, batendo as mãos com excitação enquanto as outras crianças passam correndo. Ele conhece seus limites físicos, ela diz, então ele geralmente não se junta a outras crianças brincando. Como a maioria das pessoas não consegue entendê-lo, ele geralmente não fala com ninguém além de sua irmã ou de sua mãe. Mas esta reunião é diferente. Em um passeio de ônibus no dia seguinte, Dalton se senta ao lado de um estranho e conversa sem parar durante uma hora de viagem.

 

(Texto traduzido do original da Spectrum News, em inglês)

Leia as outras duas reportagens da série, traduzidas:

Spectrum News explica: ‘Por que exames genéticos são importantes para pessoas autistas?’

A corrida da Europa por mais exames genéticos.

Estudo mostra que vacina tríplice viral não causa autismo

Trabalho científico utilizou base de 650 mil crianças na Dinamarca

A revista científica “Annals of Internal Medicine” teve um estudo publicado dia 4.mar.2019 em que conclui: a vacina contra o sarampo, a caxumba e a rubéola – conhecida como tríplice viral no Brasil; “MMR” em inglês – não causa nem aumenta o risco de autismo, assim como não desencadeia o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em crianças a ele suscetíveis. A pesquisa tomou como base um total de 657.461 crianças nascidas na Dinamarca entre 1999 e 2010 e, assim como outros estudos anteriores, refutou um mito antigo a respeito de vacinas e autismo.

Mito inglês

Em 1998, o médico inglês Andrew Wakefield publicou, na revista médica “The Lancet”, um estudo com apenas 12 crianças, que vinculava a vacina MMR (tríplice viral) e autismo. Em 2010, o médico perdeu seu registro no Reino Unido e, em 2011, a revista retirou o estudo depois que uma investigação descobriu que Wakefield havia alterado informações sobre as crianças estudadas. Wakefield, que teve de se retratar na mesma revista por erros metodológicos que alguns especialistas definem como “premeditação de sua parte”, mudou-se, então, para os Estados Unidos, onde continuou a exercer a medicina.

Desde essa época, uma alarmante queda nas vacinações, principalmente da tríplice viral, foi disparada pela notícia de que a vacina estaria ligada ao autismo, além de um debate político e entre os profissionais de medicina, além de ter potencializado teorias da conspiração envolvendo a indústria farmacêutica. Na sequência, vários tentaram reproduzir os resultados de Wakefield, no entanto, nenhuma ligação foi encontrada entre vacinas e autismo.

Para a bióloga Graciela Pignatari, “a volta dessas doenças que já estavam erradicadas é uma involução e não podemos deixar isso acontecer numa fase em que temos tanto acesso e evoluímos tanto cientificamente. Definitivamente vacina não causa autismo!”, enfatizou ela.

O estudo

O novo estudo dinamarquês, teve como base um total de 6.517 crianças que foram diagnosticadas com autismo (uma taxa de incidência de 129,7 a cada 100 mil).

No período pesquisado, 6.517 crianças foram diagnosticadas com autismo (uma taxa de incidência de 129,7 a cada 100 mil). Foram estudadas as características das crianças e o tempo decorrido desde a vacinação. O estudo afirma que “a comparação entre crianças vacinadas e não vacinadas produziu uma razão de risco de autismo de 0,93. Nenhum risco aumentado de autismo após a vacinação foi consistentemente observado em subgrupos de crianças definidas de acordo com a história de autismo dos irmãos, fatores de risco do autismo (com base em um escore de risco de doença) e outras vacinações ou durante períodos específicos após a vacinação”.

Sarampo

Em 2016, o Brasil obteve um certificado da ONU pela eliminação do sarampo, em virtude dos números dos anos anteriores. No ano passado, porém, tivemos um grande surto da doença — atingindo 11 Estados e 10.302 pessoas — por conta da baixa cobertura da tríplice viral. Entre as causas, estão os movimento antivacinas (que acreditam na ligação entre vacinas e autismo) e na entrada de venezuelanos sem imunização no Brasil, por conta da crise naquele país. Em outros lugares do mundo, o número de sarampo também cresceram assustadoramente.

Para a médica neuropediatra e geneticista Iara Brandão, a importância da imunização abrange toda a sociedade. “Vacinar é uma atitude individual. Deixar de vacinar é um risco coletivo”, resumiu a médica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a “relutância ou a recusa em vacinar” como uma das dez principais ameaças à saúde global em 2019. Não há tratamento específico para o sarampo.

O estudo completo pode ser acessado em neste link

A corrida da Europa por mais exames genéticos - Tismoo

Muitos países europeus estão atendendo à crescente demanda por exames genéticos para pessoas autistas — e suas consequentes considerações éticas e científicas.

Spectrum News é um site dos EUA que dedica-se a cobrir as questões do autismo sempre com um embasamento científico. Em janeiro de 2019, eles publicaram a primeira de uma série de três reportagens sobre genética clínica e autismo — que também foi publicado, nos EUA, pela revista Scientific American. Esta é segunda reportagem da série, publicada em 13.fev.2019. Segue aqui a tradução livre do original (em inglês), que pode ser acessado neste link. O texto, como sempre fazemos, está cheio de links referenciando os estudos científicos, quem são os especialistas citados e o que é cada exame genético.

Por Marta Zaraska
(versão em português: Francisco Paiva Junior)

Gabin Savard não tinha palavras. O menino de 2 anos estava cheio de energia, mas não falava, e seus pais, Marylou e Laurent, estavam ficando cada vez mais ansiosos. Gabin estava se desenvolvendo mais lentamente do que seu irmão mais velho, Sébastien. O casal procurou livros para pais e de pediatria, mas o que os dois leram apenas aprofundou sua preocupação. Eles repetidamente mencionaram suas preocupações ao pediatra durante exames regulares. “Talvez ele não tenha nada a dizer?”, brincou o médico, despreocupado. Laurent Savard, um conhecido comediante na França, não viu o humor.

Quando Gabin ainda não falava, com quase 4 anos de idade, seus pais decidiram levá-lo a um psiquiatra da infância, que concluiu que o menino tinha autismo. O diagnóstico ajudou a explicar o silêncio de Gabin, mas também levantou novas questões: havia algo que os pais de Gabin poderiam ou deveriam fazer? A criança ainda falaria? Que tipo de progresso seus pais poderiam esperar?

Ninguém parecia ter as respostas. Cerca de um ano depois, ainda à procura de ajuda, a família levou Gabin para uma avaliação no Hospital Universitário Robert-Debré, em Paris, especializado em condições infantis raras. Logo depois, eles receberam um telefonema: “vocês gostariam de participar do estudo Paris Autism Research International Sibpair (PARIS), um projeto internacional que recruta famílias para exames genéticos?” A família se inscreveu para o estudo e forneceu muitos tubos de saliva e sangue. E esperaram… um ano, dois, cinco. “Quase nos esquecemos que Gabin havia participado deste estudo”, recorda Laurent.

Em 2012, a família finalmente teve uma resposta do psiquiatra Richard Delorme , que supervisiona o projeto com o geneticista Thomas Bourgeron. Delorme e seus colaboradores haviam sequenciado e analisado todos os trechos do DNA da família e descobriram que Gabin carrega uma mutação no SHANK3 (este gene é necessário para que os neurônios se conectem adequadamente, e é objeto de um longo estudo de Bourgeron).

“Eu sentei na cama, e fiquei me perguntando como escrever ‘Shank’. Pensei que era ‘shrank’, com um ‘r’, como em ‘Shrek’”, contou Laurent. “Foi um tsunami emocional. Fiquei aliviado e, ao mesmo tempo, meu cérebro explodiu quando o professor Delorme me disse que isso significava um autismo muito severo”, disse.

Mutações no gene SHANK3 estão presentes em cerca de 0,7% de todas as pessoas com autismo e cerca de 2% das pessoas com autismo e deficiência intelectual . Mas nenhum dos pais de Gabin tem a mutação — o que significa que ocorreu espontaneamente. Mutações espontâneas [ou também conhecidas como mutações do tipo ”de novo”] tendem a ter efeitos severos, e Gabin provavelmente permanecerá minimamente verbal; aos 16 anos, ele ainda fala apenas algumas palavras e não sabe escrever ou contar. “Ele também é frequentemente hiperativo e tem tiques motores. Por outro lado, ele é um mestre na patinação”, diz seu pai.

Laurent Savard usou o fato de ser uma celebridade para falar publicamente sobre o autismo de seu filho. Ele diz que outros pais de crianças autistas costumam pedir conselhos a ele: por exemplo, como ele conseguiu o sequenciamento do genoma completo para seu filho? “Foi realmente apenas sorte”, diz ele. Gabin estava no lugar certo, na hora certa: por acaso visitando o Hospital Universitário Robert-Debré quando o estudo PARIS estava recrutando pacientes.

Na França, cerca de dois terços das crianças autistas recebem algum tipo de exame genético, pago pelo serviço nacional de saúde. Isso é o dobro do que é testado nos Estados Unidos, onde as companhias de seguros normalmente não cobrem o custo dos exames. A maioria das crianças francesas com autismo faz exame para a síndrome do X frágil ou recebe uma ‘análise de microarray cromossômico’. Este último exame detecta grandes deleções ou duplicações de DNA associadas ao autismo. Alguns hospitais também usam painéis genéticos, particularmente para crianças com traços graves, para examinar um pequeno subconjunto de 99 genes fortemente ligados a condições sindrômicas. Mas esses exames direcionados não produzem resultados [práticos] em 30% das vezes. E fora de um estudo de pesquisa científica, poucas crianças autistas recebem algo mais abrangente.

Para melhorar essa situação, alguns governos europeus estão canalizando fundos para expandir o número de exames genéticos que suas clínicas oferecem como rotina. Se Gabin tivesse nascido na Holanda, por exemplo, seus médicos poderiam ter optado por sequenciar seu exoma, a porção codificadora de proteína de seu genoma. “Estamos realmente em uma fase de transição. Em vez de testar um, dois, três, quatro genes [como no painel], todos estão agora migrando para o sequenciamento completo ”, diz Ype Elgersma , professor de neurociência molecular da Universidade Erasmus, em Roterdã.

Da mesma forma, a França e o Reino Unido lançaram planos ambiciosos para construir instalações de seqüenciamento, criar bancos de dados e integrar os resultados dos exames genéticos aos cuidados de saúde padrão. Em outubro, o Reino Unido anunciou planos para sequenciar 5 milhões de genomas nos próximos cinco anos. O escopo do Plano de Medicina Genômica 2025 da França é menor, mas Bourgeron diz que isso ainda ajudará a ter o sequenciamento regular dos genomas completos das pessoas. Ambos os projetos podem fornecer às pessoas autistas mais oportunidades de serem testadas. Em janeiro, por exemplo, 13 centros no Reino Unido começaram a oferecer sequenciamento de genoma completo para pessoas com câncer e condições de diagnóstico inconclusivo, incluindo autismo.

Esse movimento em direção ao exame genético é parte de uma mudança maior nas atitudes em relação ao autismo na Europa. Cerca de uma década atrás, o continente estava focado principalmente em questões sociais relativas ao autismo, como direitos e acesso, diz Zsuzsanna Szilvasy, presidente da Autism-Europe, um grupo de defesa do autismo que abrange 38 países. “Entre os Estados Unidos e a Europa, havia uma enorme diferença.” Agora, porém, a Europa está colocando os holofotes nos serviços genéticos — em parte em resposta às demandas dos pais.

À medida que esses países ampliam os exames genéticos para o autismo, seus esforços podem dar lições práticas para outras regiões [do planeta]. Os dados coletados também podem ajudar os cientistas a ligar mais variantes genéticas ao autismo, tornando os exames genéticos mais úteis para todos.

Dores crescentes

De certa forma, a Europa tem sido líder no campo dos exames genéticos para o autismo. A União Europeia, juntamente com parceiros industriais e institucionais, investiu pesadamente numa colaboração denominada EU-AIMS , o maior subsídio do mundo para pesquisa de autismo. A primeira fase do projeto, que ocorreu entre abril de 2012 e março de 2018, procurou identificar biomarcadores de autismo , entre outros objetivos; o próximo estágio, o AIMS-2-TRIALS , lançado em junho [de 2018], concentra-se no desenvolvimento e teste de terapias. “Em um ou dois anos, teremos um site com acesso a toda a informação genética deste projeto”, diz Bourgeron, que supervisiona a pesquisa genética da iniciativa.

O Council of Europe, uma organização de direitos humanos com 47 estados membros, foi o primeiro no mundo a redigir leis a respeito de exames genéticos. Esse documento, a Convenção sobre Direitos Humanos e Biomedicina, ou a Convenção de Oviedo, lançada em 1997 — vários anos antes dos EUA elaborarem qualquer legislação similar. O documento reconheceu o direito de uma pessoa saber seu histórico genético, proibiu a discriminação e introduziu o direito ao aconselhamento genético.

Um tratado de complementação em 2008 fez vários acréscimos, incluindo a proibição de exames genéticos diretos ao consumidor para variantes associadas a condições de saúde. Na última década, 29 países europeus ratificaram a convenção como lei nacional e 5 ratificaram também o tratado. No ano passado, 19 estados membros da União Européia assinaram uma declaração para compartilhar dados de saúde genômica através das fronteiras internacionais, com o objetivo de sequenciar 1 milhão de genomas até 2022.

Apesar desses compromissos, no entanto, não existem leis válidas em toda a Europa. Esta falta de regulamentação consistente deixou os profissionais de saúde no limbo, inseguros sobre como ampliar os exames genéticos para autismo ou outras condições. Na Suécia — que assinou a Convenção de Oviedo, mas não a ratificou —, os médicos de algumas regiões pedem exames abrangentes e os de outras, nenhum. “Parece muito diferente em todo o país”, diz Kristiina Tammimies, professora assistente de neuropsiquiatria no Karolinska Institutet, em Estocolmo.

Na Alemanha também, os exames podem variar dependendo de qual laboratório realiza a análise. O serviço de saúde da Alemanha paga pelo seqüenciamento limitado até 25 kilobases, ou cinco a sete genes, para qualquer condição, incluindo autismo. Os geneticistas clínicos muitas vezes enviam amostras de sangue para laboratórios sem especificar quais genes devem ser testados. Os laboratórios analisam milhares de genes e depois sugerem os que são relevantes para os médicos, que cobram do governo ou dos planos de saúde apenas esse conjunto.”Cada laboratório de diagnóstico faz de um jeito”, diz Johannes Lemke , diretor do Instituto de Genética Humana do Hospital Universitário de Leipzig. Qualquer clínico que deseje ter um sequenciamento maior, como o exoma ou o genoma completo, deve solicitar uma pré-aprovação, que é concedida em menos de 10% das vezes. “Quase não vale a pena tentar”, diz Lemke.

Na Áustria, o governo não paga por nenhum exame genético para o autismo. “Sou contatado por muitos pais frustrados. Eles me ligam; me escrevem; dizem: Sabe, ouvimos falar de exames genéticos; queremos fazer isso — se você puder fazê-lo, podemos pagar. [Mas,] sempre tenho de recusar”, diz Gaia Novarino , líder do grupo no Instituto de Ciência e Tecnologia da Áustria. Novarino e seus colegas estão tentando obter financiamento do governo ou das seguradoras para começar a oferecer exames genéticos em Viena. “O melhor cenário seria que qualquer criança que entra na clínica para diagnóstico de autismo ou o departamento de neuropsiquiatria pediátrica seja enviada quase automaticamente para exames genéticos”, argumentou ela. “Esse seria o meu sonho”.

Mas a situação na Espanha sugere que o financiamento é apenas um obstáculo. Embora o governo espanhol cubra o custo do exame genético para autismo, apenas aproximadamente metade das crianças autistas recebem qualquer exame, segundo um estudo de 2017. Dessa metade, apenas cerca de 25% escolhem a análise de microarray. Isso pode ser porque poucos médicos e famílias na Espanha estão cientes dos benefícios dos exames. Outra análise em 2017 mostrou que apenas 2,5% dos neuropediatras espanhóis prescreveram o sequenciamento do genoma completo para uma criança atendida com suspeita de alguma condição genética.

“O melhor cenário seria que qualquer criança que entrasse na clínica para o diagnóstico de autismo fosse enviada quase automaticamente para exames genéticos” (Gaia Novarino)

Preocupações com a privacidade:

Quando os médicos e as famílias sabem dos exames disponíveis e os custos são cobertos, eles ainda podem recusar os exames porque há confusão sobre o que fazer com os resultados. O equilíbrio entre o direito individual à privacidade e o ímpeto de divulgar resultados genéticos varia enormemente através das fronteiras, em parte graças a diferenças culturais. Posturas extremas em ambas as extremidades têm consequências dramáticas sobre como médicos e famílias chegam aos exames genéticos.

No Reino Unido, o Comitê Conjunto de Genômica em Medicina (Joint Committee on Genomics in Medicine) recomenda que quem faz exames compartilhem seus resultados genéticos com parentes que poderiam se beneficiar ao sabê-los — incluindo, digamos, membros da família com propensão a doenças cardíacas ou câncer específico. Se optarem por não divulgar seus resultados, o comitê incentiva os médicos a contatarem os próprios membros da família, mesmo sem o consentimento explícito do paciente. Muitos profissionais de saúde britânicos dizem que preferem preservar a confidencialidade de um paciente, mas também se preocupam em ser responsáveis por negligência se não revelarem riscos potenciais para os membros da família.

A França leva essa postura um passo adiante: de acordo com uma lei de 2011, os cidadãos franceses têm a obrigação legal de divulgar qualquer “anomalia genética grave” associada a uma doença grave a seus parentes, desde que medidas preventivas ou tratamento sejam possíveis. Mas os pesquisadores ainda estão debatendo quais mutações devem se enquadrar nesta lei.

Os resultados dos exames genéticos são ainda menos privados na Suíça e Holanda, os quais permitem às seguradoras levar em conta essas informações ao elaborar apólices de seguro de vida. Na Noruega, pessoas com certas mutações genéticas, incluindo algumas associadas ao autismo, podem ter que pagar mais pelo seguro de saúde privado . Embora apenas 9% dos pais de crianças autistas naquele país afirmem que são contra o exame genético, 67% temem que seus filhos enfrentem discriminação com seguros.

Por outro lado, a Alemanha leva a confidencialidade tão a sério que os médicos não podem discutir os resultados de uma criança, mesmo com outros médicos, sem o consentimento por escrito dos pais. “Às vezes é muito restritivo para a rotina do dia a dia de trabalho”, diz Lemke. Ele credita a história — e forte memórias da eugenia nazista durante a Segunda Guerra Mundial — como a razão das rigorosas leis alemãs. “Queremos realmente ter certeza de que está estritamente regulado e que nada possa dar errado”, diz ele.

Após a Convenção de Oviedo, a maioria das nações européias adotou leis para proteger seus cidadãos da discriminação genética. A Grécia foi tão longe a ponto de fazer emenda em sua constituição para conceder proteções claras. Alguns países, como França e Portugal, proíbem as companhias de seguros de usar resultados genéticos para estabelecer níveis de preço. Outros, como o Reino Unido, têm uma “lei branda”: desde 2001, o governo britânico tem elaborado diretrizes periódicas sobre quais informações genéticas podem ser solicitadas dos consumidores.

“Estamos realmente em uma fase de transição. Todo mundo agora está mudando para o sequenciamento completo [do genoma]. ”Ype Elgersma

Quarto para melhoria

Para colher todos os benefícios dos exames genéticos, o que é necessário, dizem os especialistas, são necessários mais diretrizes, padronização entre países, mais financiamento e maior conscientização entre os profissionais de saúde. Existem várias novas iniciativas na Europa que poderiam tornar os exames para pessoas autistas mais consistentes em todo o continente.

Por exemplo, em 2013, o Conselho Europeu de Genética Médica lançou um sistema de registro em todo o continente para profissionais de aconselhamento genéticos e começou a oferecer diretrizes profissionais os cadastrados. Apenas alguns países, como a França e a Noruega, já tinham leis que regulam esse tipo de trabalho, embora na Alemanha e na França o aconselhamento genético seja rotineiro para qualquer pessoa que faça um exame (a título de comparação, nos EUA, apenas 24% das crianças diagnosticadas com autismo fazem aconselhamento genético).

Muitos centros genéticos também estão usando diretrizes emitidas pelo Colégio Americano de Genética Médica e Genômica (American College of Medical Genetics and Genomics) em situações para as quais eles não têm nada definido. Por exemplo, a instituição de Lemke se baseia nessas recomendações ao decidir o que fazer com as descobertas ‘incidentais’ de um exame — o que pode prever outros problemas médicos ou indicar paternidade. “Temos algo no que confiar”, diz Lemke.

Além disso, a Rede Europeia de Referência Ithaca (Ithaca European Reference Network), financiada pela UE — um grupo de 38 laboratórios credenciados e centros médicos especializados em deficiência intelectual e defeitos congênitos — está tentando disseminar diretrizes e outros recursos para médicos e famílias. Especialistas estão disponíveis para consultas via sistemas de telemedicina. A rede também está tentando abrir o acesso ao sequenciamento de todo o exoma e todo o genoma no continente inteiro. De acordo com Elgersma, a rede deve nivelar as regras, assegurando que “se você tiver uma doença rara na Holanda, não teria muito mais benefícios do que se você tivesse o mesmo na Romênia”.

Todos esses países estão sendo forçados a lidar com a crescente demanda por exames genéticos, em grande parte por pais de crianças com condições raras. Para Gabin, os resultados de seu sequenciamento do genoma completo mudaram completamente a perspectiva de sua família sobre seu autismo. Laurent Savard diz que chorou depois de aprender sobre a mutação de seu filho, mas também o deixou esperançoso quanto aos avanços científicos. “Imediatamente depois, li na internet que camundongos com mutações no SHANK3 se tornaram típicos depois de um tratamento molecular”, diz ele. “Eu, então, imaginei que Gabin se tornaria típico um dia, falando, me dizendo o que ele experimentou por dentro.”

Savard sabe que há um enorme abismo entre estudos com animais e terapias para pessoas, mas ele ainda é otimista. Em seu livro de 2017, “Gabin Sans Limites” (“Gabin sem Limites”), Savard escreveu: “Talvez Gabin compense o tempo perdido… Ele nos afogará numa enxurrada de palavras. Vamos acordá-lo até no meio da noite pelo simples prazer de ouvi-lo falar”.

Por enquanto, Savard está realizando um programa de comédia stand-up para aumentar a conscientização sobre o autismo e o potencial da pesquisa genética.O ato é chamado de “Le Bal des Pompiers” — “O baile dos bombeiros” —, que acontece em toda a França, dia 13 de julho — a noite antes do Dia da Bastilha e, por coincidência, aniversário de Gabin. Para defender os direitos de Gabin, ele diz, “o humor é a melhor arma”.

(Texto traduzido do original da Spectrum News, em inglês)

 

Leia a primeira reportagem da série traduzida: Spectrum News explica: ‘Por que exames genéticos são importantes para pessoas autistas?’

 

Spectrum News explica: 'Por que exames genéticos são importantes para pessoas autistas?' - Tismoo

Testes genéticos para pessoas com autismo estão longe de ser rotineiros e nem sempre geram resultados práticos, porém as informações que eles oferecem podem mudar vidas.

Spectrum News é um site dos EUA que dedica-se a cobrir as questões do autismo sempre com um embasamento científico. Nesta semana (no dia 30.jan.2019), eles publicaram a primeira de uma série de três reportagens sobre genética clínica e autismo — que também foi publicado, nos EUA, pela revista Scientific American. Segue aqui a tradução livre do texto, cujo original (em inglês) pode ser acessado neste link. Este texto, na versão em português, está cheio de links (em inglês e alguns em português) — como sempre fazemos — referenciando os estudos científicos, quem são os especialistas citados, o que é cada exame genético, gene e síndrome na reportagem.

Por Jessica Wright
(versão em português: Francisco Paiva Junior)

Poucos minutos após James nascer, em abril de 2003, ficou claro que ele não estava bem. O bebê foi reprovado em um teste de triagem neonatal e estava lutando para respirar, quando foi enviado diretamente da sala de parto para a unidade de terapia intensiva neonatal. Os médicos suspeitaram que ele tinha uma condição genética, mas os exames genéticos, como há 15 anos, não deram respostas. Então, nove dias depois, a mãe de James, Angela, levou-o para casa. (Estamos omitindo os sobrenomes de James e Angela para proteger sua privacidade.)

Quando bebê, James lutava para comer e nunca dormia por mais de 20 minutos de cada vez, mas Angela atribuía essas coisas ao fato de ser um recém-nascido e ao estresse de terem se mudado para o outro lado do país. Ele não sentava sem ajuda até um ano, nem engatinhou até os 18 meses de idade, mas os médicos e amigos asseguraram que ele estava bem. Quando James tinha 14 meses, um conhecido fisioterapeuta deu uma olhada na criança e disse a Angela que ele claramente tinha algum tipo de atraso no desenvolvimento. Mas até os especialistas que ela levou o filho desconsideraram seus gritos altos, ele agitar as mãos e tender a ignorar os outros como consequências de sua fraca audição. Aos quatro anos, ele foi finalmente diagnosticado com autismo.

À medida que James crescia, outras preocupações com a saúde surgiram: ele foi a fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, hematologistas, neurologistas, neuropediatras, psicólogos, terapeutas comportamentais, otorrinolaringologistas e gastroenterologistas. Ele passou por cinco cirurgias por problemas de sinusite. E seu sangue continha tão poucas plaquetas — células responsáveis por coagular o sangue — que, quando ele acordava com uma hemorragia nasal, “pareceria que alguém havia morrido em sua cama”, lembra sua mãe.

Ainda assim, essa constelação particular de problemas não correspondia a nenhuma condição genética conhecida e, sem um diagnóstico, os médicos de James não tinham tratamentos a oferecer. “Nossa história sempre foi ‘sabermos que havia algo de errado com ele, mas não sabermos o que era [exatamente]’ e ficávamos como espectadores”, diz Angela.

Essa espera terminou em agosto, quando Angela finalmente obteve respostas. Um teste genético que não estava disponível quando James nasceu revelou que ele tem uma mutação em um gene chamado TAF1. A mutação provavelmente explica o autismo, a deficiência intelectual e outros problemas de James.

As respostas, ainda que atrasadas, mudaram significativamente o atendimento de James. Por exemplo, um osso em seu pé está desenvolvendo uma deformidade, comprometendo sua postura e dificultando a caminhada. Seus médicos inicialmente sugeriram uma cirurgia para corrigi-lo, mas mudaram de ideia quando os resultados genéticos deixaram claro que o problema era neurológico e que voltaria a ocorrer. Em vez disso, encaminharam James para um fisioterapeuta.

Exames genéticos não se destinam a diagnosticar autismo — não são em todos os casos que uma mutação conhecida leva ao transtorno  — mas, como no caso de James, os resultados podem alterar substancialmente o curso dos tratamentos ou a prevenção de algo. Algumas mutações revelam que o portador é propenso a condições médicas, como convulsões, obesidade ou problemas renais, por exemplo. A informação também pode conectar pessoas que compartilham uma mutação; alguns desses indivíduos e suas famílias até fomentaram a pesquisa descobrindo traços compartilhados . E conhecer os riscos específicos associados a uma mutação ajuda as famílias a tomar decisões a respeito de ter mais filhos.

Mesmo assim, a maioria das pessoas autistas e suas famílias nunca obtêm acesso a essa informação: nos Estados Unidos, o teste genético é oferecido para cerca de uma em cada três crianças com autismo. (Os números de exames são mais altos em alguns países, como na França e no Reino Unido, e menores em outros, como na Áustria e na maioria dos países mais pobres.)

À medida que o custo dos exames cai, alguns centros especializados começam a oferecer [exames genéticos] a qualquer pessoa com diagnóstico de autismo. A informação obtida pode influenciar o tratamento, não apenas daquele indivíduo, mas de qualquer pessoa que tenha aquela mutação, diz David Ledbetter, diretor científico da Geisinger Health System em Danville, Pensilvânia: “Acho inadequado não ter pelo menos essa informação [genética] disponível”.

Recomendações ignoradas

Para uma família que procura um exame genético para seu filho autista, há algumas opções. A Academia Americana de Pediatria [AAP] e o Colégio Americano de Genética Médica e Genômica [ACMG, na sigla em inglês] recomendam alguns exames, incluindo análise de microarray cromossômico, uma técnica que detecta grandes duplicações ou deleções de DNA. Se isso não produzir nenhum resultado — o que acontece de 80 a 85% das vezes — as diretrizes aconselham os médicos a testar duas formas sindrômicas de autismo.

No entanto, a maioria das pessoas nunca ouve sobre esses exames. Os médicos que cuidam de crianças autistas geralmente desconhecem os benefícios dos testes [genéticos] ou relutam em prescrevê-los por falta de treinamento. Por exemplo, uma pesquisa com 108 pediatras em Utah descobriu que 70% deles nunca haviam prescrito exames genéticos para autismo ou prescreveram apenas após um especialista recomendá-los. “Quando eu estava em residência, nada disso foi ensinado a mim”, diz o pesquisador-chefe Paul Carbone , um pediatra da Universidade de Utah em Salt Lake City, que supervisiona o tratamento de James. “É um campo complexo, muito em evolução, que eu acho que você precisa realmente fazer um esforço para ficar de pé.”

O custo desses exames é muitas vezes uma barreira intransponível: as companhias de seguros nos Estados Unidos normalmente não reembolsam por eles, porque, dizem eles, os resultados não mudam o tratamento do autismo. “[Reembolso] é muito variável dependendo da política que eles têm, da empresa e de quanto tempo eu posso passar ao telefone conversando com um atendente lendo uma tela de computador”, diz Joseph Cubells , professor associado de genética humana e psiquiatria na Emory University em Atlanta, Georgia. “É muito limitado e frustrante.”

Exames rotineiros de microarray teriam poupado os anos de preocupação e culpa de Calleen Kenney, quando a filha Maia nasceu, há 20 anos. Quando Maia tinha dois anos, os médicos a examinaram procurando por algumas condições conhecidas associadas ao autismo, incluindo síndromes do X Frágil e de Angelman. Kenney interpretou os resultados negativos como significando que a condição de Maia não era genética. Mesmo quando os médicos notaram que Maia tinha características faciais distintas que sinalizam uma condição genética, Kenney pensou que eles estavam simplesmente criticando a aparência de sua filha. Quando Maia foi diagnosticada com autismo, cerca de um ano depois, Kenney começou a questionar tudo o que tinha feito, desde vacinar Maia até as coisas que ela havia comido quando estava grávida.

Foi somente em outubro, [de 2018] quando Maia finalmente teve uma análise de microarray cromossômico, que Kenney descobriu que sua filha tinha uma deleção de uma região genética chamada 22q13. A deleção leva à síndrome de Phelan-McDermid, uma condição para a qual a Maia nunca fez um exame. A síndrome, muitas vezes acompanhada de autismo, pode afetar os rins e os olhos, e Kenney imediatamente pensou nos problemas contínuos de Maia com a micção e os canais lacrimais bloqueados; desde então, ela providenciou que os rins e os olhos de Maia fossem examinados frequentemente.

Kenney também parou de se culpar e tentar mudar a filha. Maia ficou mais ansiosa com o tempo e tem pavor de fazer qualquer coisa sozinha. Antes do exame, Kenney tentara ensinar Maia a ser mais independente, o que só deixava Maia mais ansiosa e irritada. Mas agora, reconhecendo que Maia é como ela é, por causa da biologia, Kenney contratou cuidadores extras para garantir que Maia sempre tenha ajuda.

“Em vez de tentar mudar seus comportamentos, estamos modificando como cuidamos dela”, diz Kenney. “Isso me deu muito alívio de saber de onde vem o autismo dela, e que não havia nada que eu pudesse ter feito diferente.”

“É uma experiência pessoal transformadora para essas pessoas.” David Ledbetter

Gene a gene

A condição de Maia é uma das poucas associadas ao autismo causadas por grandes mutações cromossômicas. Em muitos outros casos, a mutação interfere em um único gene — e pode haver centenas desses genes, de acordo com a última estimativa. Mas os painéis genéticos que muitos laboratórios comerciais ainda usam incluem poucos genes dessa lista, favorecendo os associados a síndromes conhecidas. Um estudo no ano passado descobriu que as listas de genes de 21 empresas têm apenas um gene em comum; apenas 12 incluíram o CHD8 , frequentemente citado como um dos principais genes ligado ao autismo.

“Não há critérios claros para atribuir um gene a uma lista de autismo, [e] a maioria das empresas não fornece uma justificativa para essa inclusão”, diz o pesquisador Ny Hoang, um conselheiro genético do Hospital for Sick Children em Toronto, no Canadá. Hoang e seus colegas fazem parte de um grupo de trabalho internacional que reúne uma lista de genes que têm fortes laços clínicos com o autismo. Eles visam disponibilizar publicamente a lista e um conjunto de diretrizes e atualizá-las constantemente.

Em última análise, os exames genéticos deveriam sequenciar o genoma completo das pessoas: o trabalho preliminar apresentado em uma conferência sobre genética em outubro [de 2018] sugere que esse seria o método de primeira linha mais eficiente, pois detectaria todas as informações de todo tipo de teste genético. Enquanto isso, alguns centros sofisticados, incluindo laboratórios de pesquisa, têm acesso a ferramentas que podem sequenciar o exoma — a coleção de todos os segmentos codificadores de proteínas em um genoma. Esse método é caro, e a longa lista de resultados que ele gera pode dificultar a identificação da mutação responsável. Mas também pode revelar mutações inesperadas.

Carbone teve que pedir duas vezes que o exoma de James fosse sequenciado — demorou dois anos até que a companhia de seguro concordasse. Em julho, um mês antes da chegada dos resultados, James, de 15 anos, fez uma cirurgia para reconstruir uma abertura para os seios da face [por conta de sinusite]. Após o procedimento, ele recebeu alta e foi mandado para casa. Mas, então, ele começou a sangrar. Ele desmaiou por causa da perda de sangue, e Angela o manteve em pé, o que desencadeou convulsões. Quando ele acordou, aterrorizado, James lutou contra os paramédicos enquanto tentavam levá-lo de volta ao hospital.

Um mês depois, o sequenciamento do exoma revelou que James tem duas mutações principais: a do TAF1, que explica seu autismo e atraso no desenvolvimento; e outra no gene GP9, que causa seu baixo número de plaquetas, o que levou a complicações após a cirurgia.

Além dos benefícios para o indivíduo, o seqüenciamento de exoma pode ser a única maneira de os cientistas descobrirem a lista completa de mutações relacionadas ao autismo. Com esse objetivo em mente, a equipe de John Constantino oferece um sequenciamento de exoma para qualquer pessoa que visite sua clínica de autismo na Washington University em St. Louis, Missouri. A equipe testa cada indivíduo com um microarray primeiro e, em seguida, faz com que o caso para o sequenciamento do exoma se qualifique para o reembolso do seguro. Eles fazem parceria com um laboratório comercial que negocia os reembolsos e usa um subsídio privado para absorver qualquer coisa que o seguro não cubra. “Estamos lidando com uma dessas tragédias ridículas de um sistema de saúde não sistematizado [nos EUA]; é como barganhar ou algo assim”, diz Constantino.

Constantino e seus colaboradores identificaram variantes genéticas que predispõem as pessoas autistas a subtipos de epilepsia que respondem a drogas específicas. Os resultados também alteraram o tratamento para algumas pessoas autistas, com base em relatos de casos de outras pessoas com a mesma mutação. E em um caso, a equipe encontrou uma mutação ligada ao autismo em uma criança não diagnosticada. A criança mostrou comportamentos agressivos em público e foi levada de seus pais pela Child Protective Services [órgão semelhante, no Brasil, ao Conselho Tutelar]; ele se uniu à sua família após o diagnóstico.

O grupo de Ledbetter, na Geisinger, também oferece exames genéticos para cada indivíduo com autismo ou atraso global do desenvolvimento. Eles conseguiram convencer a seguradora parceira de que o sequenciamento do exoma deveria ser o exame prioritário […]. Ambos os grupos mantêm listas independentes de mutações e seus efeitos clínicos associados. O médico comum, no entanto, pode não estar ciente desses recursos ou não saber como aplicá-los.

Existem alguns bancos de dados disponíveis para qualquer clínico que precise procurar o significado de uma mutação específica. ClinVar e ClinGen, financiados pelo National Institutes of Health, listam genes e variantes específicas encontradas em indivíduos com condições conhecidas. A ClinGen, por exemplo, lista 40 genes com uma ligação “definitiva” ao autismo. Organizações profissionais aconselham os médicos a pesquisarem tanto ClinVar quanto ClinGen, bem como grandes bancos de dados de controles. Eles também recomendam avaliar se a mutação pode afetar a proteína relacionada. O resultado é uma pontuação geral de “patogênica”, “provavelmente patogênica”, “significado incerto”, “provavelmente benigna” ou “benigna”.

Este sistema de classificação é uma tentativa de padronizar como laboratórios ligam genes e variantes a uma condição, diz Christa Lese Martin, diretora do Instituto de Medicina do Autismo e Desenvolvimento da Geisinger. Muitos laboratórios reanalisam rotineiramente todas as seqüências em seu banco de dados anualmente para procurar links previamente desconhecidos. Geisinger também mantém uma lista de observação de genes: no ano passado, por exemplo, eles atualizaram o gene DLG4 de “significado incerto” para “patogênico”, diz Martin. “Aprendemos muito com mais dados”.

A equipe da Geisinger está oferecendo o sequenciamento de exoma para qualquer pessoa que visite sua clínica de saúde e testou mais de 100.000 pessoas até o momento. De um grupo inicial de 60.000 pessoas, eles identificaram 35 que têm uma deleção em um segmento cromossômico chamado 16p11.2 , que está ligado ao autismo e à obesidade. Todos os 35 estão acima do peso ou obesos, mas informações precoces sobre a mutação poderiam ter evitado esse resultado.

Para muitas pessoas autistas e suas famílias, a informação também oferece um poderoso alívio de uma vida inteira de incertezas.

“É uma experiência pessoal transformadora para essas pessoas que tiveram problemas de aprendizado, lutaram na escola e nunca entenderam o porquê; seus pais e professores pensaram que eram preguiçosos e não estavam se esforçando; [ou] seus pais e professores não acreditavam que tivessem transtorno de ansiedade; [ou] eles tinham o que achavam que eram problemas médicos físicos sem qualquer relação entre si”, diz Ledbetter. “Achamos que seria muito melhor para as pessoas descobrirem isso na primeira infância”.

Desde que James recebeu o tratamento adequado para sua condição de sangramento, ele não teve mais hemorragia nasal. Se seus médicos soubessem sobre sua condição mais cedo, eles poderiam ter poupado James do trauma de ser levado de volta para o hospital em uma ambulância após a cirurgia do seio da face. James costumava sorrir e apontar com entusiasmo quando via ambulâncias e caminhões de bombeiros, mas agora grita: “Sem ambulância!” e “Sem caminhão de bombeiros!”. Levá-lo ao hospital, mesmo para consultas de rotina, tornou-se um desafio.

Para Angela, os resultados genéticos acabaram com anos de espera. Parte do que ela aprendeu sobre os efeitos da mutação TAF1 tem sido preocupante, ela diz, mas pelo menos ela finalmente conhece a raiz das condições de James e pode planejar o futuro. “Há pesar, [mas] finalmente há aceitação”, diz ela. “Eu sou grata por saber”.

 

(Texto traduzido do original da Spectrum News, em inglês)

Estudo entre irmãos reforça ligação entre autismo e TDAH - Tismoo

Trabalho sugere que um filho com TDAH implica em risco maior do outro ter autismo e vice-versa

Um estudo recente do Mind Institute, do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis), e outras universidades associadas reforça a ligação genética entre Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Transtorno de Déficit da Atenção com Hiperatividade (TDAH). Segundo o estudo, quem tem um filho com autismo tem mais risco de ter outro filho com TDAH e vice-versa — um filho com TDAH significa risco mais de que ele tenha um irmão com autismo. Os resultados da pesquisa, publicada no científico Jama Pediatrics, reforçam a ideia de que existe uma sobreposição genética importante entre as duas condições.

Outros estudos já registraram o risco em irmãos para cada um desses transtornos individualmente, considerando que TDAH e TEA compartilham algumas características. Esta pesquisa, todavia, contempla as duas condições de saúde de uma vez, focando no risco em irmãos mais novos.

A pesquisa foi feita com 15.175 crianças com cinco anos ou mais que têm pelo menos um irmão mais velho. Dessas, 158 irmãos têm diagnóstico de autismo e 730 têm, de TDAH.

Riscos

Os números dos riscos são contundentes. As crianças que têm um irmão mais velho autista têm 30 vezes mais chances de ter diagnóstico de autismo em comparação com crianças que têm um irmão mais velho neurotípico (sem autismo). As crianças cujo irmão mais velho tem TDAH têm 13 vezes mais chances de ter TDAH também.

“Ambos os resultados confirmam o fator familiar nesses transtornos do desenvolvimento neurológico”, analisou, ao site Spectrum News, Tinca Polderman , professora assistente de desenvolvimento de características complexas na Vrije Universiteit Amsterdam, na Holanda, que não esteve envolvido nesse trabalho. Mas a escala do efeito do autismo é “surpreendente”, diz ela. Estudos anteriores estimaram esse aumento em 14 a 20 vezes.

Uma condição frente o risco da outra, entre irmãos, também apresenta um número significativo em comparação com o risco com irmão mais velho neurotípico. Crianças com irmãos mais velhos autistas têm 3,7 vezes mais chances de ter TDAH; e aquelas com um irmão mais velho com TDAH têm 4 vezes mais chances de ter autismo.

O estudo está disponível pelo PubMed em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30535156

 

(Com informações do Spectrum News)

 

Alterações em gene de síndrome ligada ao TEA, podem ter efeitos mais leves que deleções - Síndrome de Phelan-McDermid - Tismoo

Novo estudo refere-se a alterações relacionadas à síndrome de Phelan-McDermid, aproximadamente 1% dos casos de autismo

Pessoas com alterações no cromossomo 22q13.3, especialmente no gene SHANK3 têm deficiência intelectual e outras características da condição mais associada a ele, a síndrome de Phelan-McDermid (saiba mais neste nosso artigo) — resultado da perda ou alteração deste gene.

Um novo estudo, porém, mostra que casos da síndrome com alteração no SHANK3 têm quadros clínicos mais leves do que casos que tem deleção total do gene ou  ausência do gene completo, ou seja, quando falta um pedaço de DNA onde está aquele gene.

SPM

A síndrome de Phelan-McDermid (SPM) é caracterizada, principalmente, por: atraso global no desenvolvimento neuropsicomotor, hipotonia (redução ou perda do tônus muscular), alta tolerância a dor, atraso ou ausência de fala e, na maioria das vezes, autismo.

Alterações no SHANK3 são responsáveis por cerca de 1% do autismo. Mas ainda não está claro o porquê de apenas algumas pessoas com as alterações estarem no espectro. Uma pequena proporção de pessoas com SPM tem alterações pontuais ao invés de deleções no SHANK3, mas falta ainda uma avaliação completa das características clínicas desse grupo. A maioria tem deleções — não possui um trecho de DNA na porção terminal do braço longo do cromossomo 22, chamado 22q13.3. A deleção pode variar em tamanho, mas normalmente inclui o SHANK3 — além de 25 a 30 outros genes. Quanto maior a exclusão, mais graves são as características.

Neste novo estudo, os pesquisadores avaliaram 62 pessoas com síndrome de Phelan-McDermid com alterações pontuais neste gene. E descobriram que elas são suficientes para causar a síndrome, mas tendem a resultar em características mais leves do que as deleções completas do SHANK3. Ou seja, deleções na região 22q13.3 trazem problemas clínicos complexos, enquanto nas alterações pontuais do SHANK3 não.

“É claro que outros genes na região contribuem para o fenótipo, porém, deleção total  do gene SHANK3 já é suficiente para causar um fenótipo bastante significativo para a SPM”, diz o pesquisador Alexander Kolevzon, professor de psiquiatria e pediatria da Icahn School of Medicina no Monte Sinai, em Nova York, para o site Spectrum News.

Exame para Phelan-McDermid

O CGH-SNP-Array é o teste genético inicial recomendado para diagnosticar a SPM, que, porém, detecta apenas casos desta síndrome com deleções do 22q13.3. “Os novos resultados sugerem que pessoas com características da síndrome de Phelan-McDermid que não têm uma deleção devem ser testadas para as alterações do gene SHANK3”, explicou Luigi Boccuto, geneticista clínico do Greenwood Genetic Center na Carolina do Sul. “Este estudo tem uma mensagem muito importante para os médicos”, completa ele para o Spectrum News. Vale salientar que o sequenciamento do Exoma é o exame genético que verifica alterações do gene SHANK3 e de inúmeros outros genes importantes para SPM e outras síndromes relacionadas ao autismo.

Neste outro estudo, foram recrutadas 17 pessoas com alterações no gene SHANK3 e diagnóstico de SPM, em idades entre 3 a 42 anos e também foi avaliada a história médica dos indivíduos, quocientes de inteligência (QI), habilidades de vida diária, linguagem, habilidades motoras e capacidade de processar estímulos sensoriais. Eles também levaram em consideração as características de autismo.

Os números da pesquisa

Todos esses indivíduos envolvidos nesta pesquisa apresentavam deficiência intelectual e 11 deles tinham autismo — sendo que 5 apresentavam convulsões. A maioria deles apresentou baixo tônus muscular e anormalidades na marcha.

Cinco dos indivíduos não falava nenhuma palavra, três falavam algumas palavras e um deles usava basicamente palavras isoladas. As oito pessoas restantes falavam em sentenças, embora suas habilidades de fala não sejam equivalentes às de pessoas neurotípicas. Ainda assim, o grupo teve melhores habilidades lingüísticas em geral do que pessoas com deleções na região 22q13.3.

Dos 17, 11 deles (65%) apresentaram regressão — definida como uma perda de habilidades linguísticas, motoras ou comportamentais previamente adquiridas — em algum momento entre a primeira infância e a adolescência. A taxa de regressão em pessoas com deleções é menor, em cerca de 40%.

“Pessoas com deleções maiores podem não apresentar regressão porque suas habilidades estão comprometidas no começo”, diz Boccuto. Os resultados foram publicado no dia 27 de abril de 2018, na Molecular Autism.

Pessoas com alterações pontuais no SHANK3 têm mais outras características da síndrome de Phelan-McDermid, incluindo dificuldades de alimentação, características faciais incomuns e maior tolerância à dor. Nenhum deles tem problemas renais, que são relatados em até 40% das pessoas com deleções, e apenas um tem um problema cardíaco, que ocorre em até 13% das pessoas com deleções. Esses problemas podem estar relacionados a outros genes além do SHANK3, diz Kolevzon.

As Alterações

Os pesquisadores também analisaram registros clínicos de 45 pessoas com SPM que apresentam alterações pontuais no gene SHANK3 e encontraram resultados semelhantes. Todos os indivíduos tinham como característica clínica deficiência intelectual e  26 dos 34 avaliados preenchiam critério para diagnóstico de autismo

A proteína SHANK3 organiza outras proteínas nas sinapses, a ligação entre os neurônios. Alterações neste gene podem resultar em uma proteína defeituosa desta forma,  a deleção de uma cópia deste gene já reduziria o nível desta proteína pela metade. Um novo modelo animal (usando camundongos) da síndrome de Phelan-McDermid representa as consequências potenciais da deleção. O conjunto de dados do novo estudo é muito pequeno para que os pesquisadores possam prever os efeitos de cada alteração. “Para este estudo, agrupamos todas as alterações juntas. Mas onde a alteração ocorre no gene também poderia ter relevância”, diz Kolevzon.

Até agora, a equipe recrutou mais de 100 indivíduos com síndrome de Phelan-McDermid e alterações no gene SHANK3 para um estudo maior, destinado a vincular alterações específicas a características da síndrome.

Em Resumo

O estudo aponta que alterações no gene SHANK3, responsável por 1% dos casos de autismo, são suficientes para causar a síndrome de Phelan-McDermid, mas tendem a resultar em características mais leves do que deleções do SHANK3, ou seja, mais leves do que em indivíduos que não possuem um pedaço de DNA que inclui este gene. A deleção pode variar em tamanho, mas quanto maior a exclusão, mais graves são as características, que incluem o SHANK3 e mais outros 25 a 30 genes.

No Brasil, estimativas apontam para um potencial de até 20 mil casos ainda não diagnosticados, as informações são de uma associação de amigos e familiares criada em 2013 no país, a AFSPM, que pode ser contatada através do site www.phelanmcdermidbrasil.com ou pelo e-mail phelanmcdermidbr@gmail.com.

(Com informações do Spectrum News e da AFSPM)

Leia também o texto “Você conhece a Síndrome de Phelan-McDermid“, da pesquisadora Helen Ferraz, compartilhado com a gente por ela e pela Claudia Spadoni. Além de mães e leitoras do nosso portal, elas são membros do grupo de apoio AFSPM, que atua em todo o Brasil divulgando informações e incentivando discussões sobre o tema.

Edição genética de bebês na China usando Crispr-cas9 - cientistas da Tismoo se posicionam

Pesquisador chinês diz ter feito alteração genética em embriões com Crispr-cas9 para ficarem imunes ao HIV

O cientista chinês He Jiankui, de 34 anos, da universidade SUSTech (Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China), em Shenzhen, na China, em 25 de novembro de 2018, anunciou (por um vídeo no YouTube) que havia editado o gene CCR5 em dois embriões humanos, com o objetivo de que os bebês não expressem um receptor para o vírus HIV. Ele diz serem duas meninas, gêmeas, que He chama de “Lulu” e “Nana”, nascidas poucas semanas antes do polêmico anúncio do cientista. A pesquisa foi duramente criticada em todo o mundo, um experimento considerado perigoso e prematuro. No dia 29 de novembro, as autoridades chinesas suspenderam todas as atividades de pesquisa de He, afirmando que “suas pesquisas violavam leis chinesas”.

Ele afirmou que os pais envolvidos não quiseram ser identificados ou entrevistados, e não disse onde eles moram ou onde o trabalho foi feito. A técnica utilizada foi com a enzima Crispr-cas9 (do inglês: Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats — em português: repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas), uma tecnologia que permite copiar e colar o DNA. Para quem quiser entender a técnica, há um vídeo do canal Ciência Traduzida (quem quiser ver uma versão reduzida, assista de 3:12s a 5:50s) e o site G1 também fez um infográfico bem interessante explicando a técnica.

Opiniões

Cientistas cofundadores da Tismoo se posicionaram a respeito da possível edição genética de embriões humanos e seus desdobramentos.

Para o cientista Roberto Hiroshi Herai, “a técnica Crispr-cas9 já demonstrou que é capaz, sem sombra de dúvidas, de modificar o genoma humano de forma eficiente, entretanto é possível que ela também introduza mutações indesejáveis, que é o que chamamos de variações off-target”, comenta o pesquisador e professor da Escola de Medicina da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná). “O fato de comprovadamente ainda não termos controle absoluto de como evitar essas possíveis variantes genéticas ocasionadas pelo efeito off-target da técnica Crispr-cas9, faz com que várias delas sejam potencialmente inseridas em regiões do genoma que ainda desconhecemos se há ou não função”, explicou Herai, que é doutor em genética e biologia molecular e fez pós-doutorado em genética de microorganismos e em medicina celular e molecular.

Alysson Renato Muotri, professor da faculdade de medicina na Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), entende que toda tecnologia de ponta passa por um período crítico e o feito do pesquisador chinês aconteceria cedo ou tarde. “Na década de 50, transplante de células-tronco para tratar doenças do sangue tinham uma eficiência de 3% e muitos pacientes morriam durante o procedimento. Hoje, a eficácia é cerca de 90% e raramente letal. O mesmo aconteceu com transplante de órgãos, como coração, ou mesmo sangue e até mesmo na fertilização in vitro. Existe um custo a ser calculado na implementação de qualquer procedimento médico original. Por isso, fazemos testes pré-clínicos. Na década de 90, um garoto morreu de forma desnecessária ao participar de um ensaio clínico para terapia gênica. Esse incidente atrasou a ciência por mais de uma década e somente hoje em dia, sabemos como controlar melhor os vetores virais usados nesse tipo de terapia”, explicou ele.

“O caso da edição genética em bebês seria mais semelhante ao caso da terapia genética. Hoje em dia, temos como melhorar a eficácia das enzimas usadas no processo em laboratório a fim de evitar alterações no DNA indesejadas, mas isso leva tempo. O pesquisador chinês não usou a tecnologia mais avançada e segura. Essas alterações off-targets no genoma podem causar doenças ainda não antecipadas, como câncer no adulto. Além disso, temos o problema da transmissão da alteração genética pelas células germinativas. Os dois bebês chineses terão essas alterações presentes nos óvulos das duas meninas. Futuras gerações derivadas desses bebês também carregarão essas alterações e eventuais efeitos indesejados. Por isso mesmo, esse tipo de edição genética em embrião humano é, por enquanto, proibida nos EUA. No entanto, a edição genética em humanos será inevitável. Conforme iremos resolvendo as questões experimentais, a parte ética também vai se ajustando e, eventualmente, o procedimento entrará em clínica para alguns casos mais graves”, esclareceu Muotri, doutor em genética e com pós-doutorado em neurociência e células-tronco.

A professora de embriologia e genética da USP (Universidade de São Paulo) Patrícia Beltrão Braga, também se posicionou sobre a polêmica: “A edição genética de embriões humanos não é permitida por nenhum comitê de ética no mundo, pois a técnica precisa passar por alguns testes para que seja considerada segura para aplicação em seres humanos. Ainda é cedo para isso. Além do mais, a edição de um embrião sadio através da remoção de um gene não se justifica per se. No caso das gêmeas, o gene removido é  utilizado para a entrada do vírus HIV, o que não justifica a sua remoção, já que as chances de uma pessoa pegar o vírus são baixas se tomadas as devidas precauções. Além disso, existe medicação para combater os efeitos da infecção viral. Por outro lado, não sabemos as consequências a médio e longo prazo da remoção desse gene para o organismo humano”, opinou a cientista, que tem mestrado em virologia, doutorado em biologia molecular e fez pós-doutorado em biologia celular e outro em neurociência.

Mais informações

O caso ainda rende muitas controvérsias ao redor do mundo e outras informações podem ser obtidas online nos seguintes endereços:

Vídeo

Veja, abaixo, o vídeo explicativo sobre a técnica de edição de DNA, Crispr-cas9, do canal Ciência Traduzida: